Pesquisas na Universidade da Pensilvânia e na UnB confirmam efeitos benéficos da oração
Leila Marco
15/12/2009
Já parou para pensar que, enquanto lê esta reportagem, bilhões de orações são feitas por todo o Planeta? Muitos incluem a prece na própria rotina de vida, outros apenas a utilizam em momentos de desespero, de grande dor, ou para agradecer uma dádiva. Independentemente da razão pela qual a fazem, a prece é, com certeza, a mais usada, a mais universal expressão de confiança e fé em um Poder Superior.
Foto: André Fernandes
Apesar disso, e de sempre ter estado presente em todas as culturas e tradições religiosas, não mereceu ainda a devida atenção de psicólogos e neurocientistas. Apenas no fim do século passado e, principalmente, no início deste é que o ato de rezar, ao alcance de qualquer mortal, tornou-se objeto de pesquisa. Um trabalho da Universidade de Yale (EUA), publicado no Jornal da Associação Médica Americana (em inglês, Jama), informa que, em 1994, apenas 17 faculdades americanas possuíam cursos sobre Medicina e Espiritualidade. Dez anos depois, as instituições que passaram a oferecer a disciplina já eram 84, a exemplo de prestigiados centros educacionais do mundo como a Universidade de Harvard, em Massachusetts, e a Universidade de Duke, na Carolina do Norte. No Brasil, o interesse na área já desponta, com departamentos inteiros dedicados a matérias relacionadas; é o caso da Universidade de São Paulo (USP) e das federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Ceará (UFC), de Juiz de Fora (UFJF) e de Minas Gerais (UFMG).
Vale dizer que o sentimento religioso nunca se afastou de grandes cientistas, basta observar o pensamento do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) durante entrevista ao escritor James Murphy e ao matemático John William Navin Sullivan, em 1930: “Todas as especulações mais refinadas no campo da Ciência provêm de um profundo sentimento religioso; sem esse sentimento, elas seriam infrutíferas”.
Biologia da fé
Foto: Divulgação
Professor e radiologista Andrew Newberg.
A neuroteologia é um dos ramos que tentam explicar em laboratório a relação entre Espiritualidade e cérebro. Nos anos 1970, o psiquiatra e antropólogo Eugene d’Aquili (1940-1998) deu os primeiros passos nesse sentido. A partir da década de 1990, os estudos dele ganharam a ajuda do radiologista Andrew Newberg, professor da Universidade da Pensilvânia, EUA. Na pesquisa, eles acompanharam o desenvolvimento cerebral de monges budistas tibetanos durante a meditação. Por meio da tecnologia de Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único (em inglês, SPECT), perceberam uma diminuição do fluxo sanguíneo no lobo parietal superior, região do cérebro situada na parte de trás do crânio e responsável pela orientação no espaço e no tempo. Essa falta de “fronteiras” experimentada pelos monges alargaria a percepção de um “eu” expandido, unido a todas as coisas. O trabalho desse cientista abriu a perspectiva segundo a qual o Ser Humano teria sido dotado especialmente de áreas no cérebro dirigidas para a comunicação com Deus.
Newberg afirma também que ao pensar nas maneiras pelas quais algo é definido como real, a pesquisa leva à seguinte conclusão: chama-se algo de real porque, antes de tudo, parece real ao cérebro. “Se isso for verdade, as experiências místicas são vistas como mais reais do que nossa experiência diária física, então, não teremos outra escolha senão concluir que elas representam a verdadeira realidade. Precisaremos encontrar uma forma de unir o conhecimento obtido pela Ciência e pela Espiritualidade para responder a essas questões fundamentais”, defende.
Em seu mais recente livro, How God can change your brain (Como Deus pode mudar seu cérebro, tradução literal), o dr. Newberg afirma que é possível mudar o circuito mental, de forma a melhorar a existência humana: “Nossas descobertas mostram que, quanto mais acreditamos em algo, mais isso se torna realidade. Por essa razão, se nos focarmos em emoções positivas, sentimentos de compaixão, com uma abertura a novas idéias, este se tornará o nosso caminho. Porém, se nos ligarmos no ódio, na raiva e na hostilidade contra os outros, aumentaremos níveis de estresse, causando danos físicos e psicológicos a nós mesmos e aos outros ao redor”.
UnB analisa os efeitos da prece
Foto: Kássia Karen
Dr. Carlos Eduardo Tosta.
A eficácia e os efeitos dessa energia gerada no exercício da Fé também têm despertado interesse no Brasil, como nos apresenta o escritor Paiva Netto em sua obra As Profecias sem Mistério, no capítulo “UnB e o Poder da Oração”, ao descrever o trabalho do professor titular de Imunologia da Faculdade de Medicina (FMD) da Universidade de Brasília (UnB), dr. Carlos Eduardo Tosta. Em palestra proferida no fim de 2007, no II Congresso Preparatório para o Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV (leia quadro ao lado), que se realizará no próximo ano, dr. Carlos comentou o resultado do estudo que desenvolveu, de 2000 a 2003, no Laboratório de Imunologia Celular da FMD.
Segundo o dr. Tosta, a finalidade da pesquisa era responder à pergunta: “Existem provas contundentes de que a oração pode restabelecer a saúde?”. Nesse estudo, o especialista da UnB usou como referência o trabalho desenvolvido em 1988, no Hospital Geral de San Francisco (Califórnia, EUA), pelo cardiologista norte-americano Randolph Byrd, que observou um grupo de 393 pacientes da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) coronariana, aos quais era dado o mesmo tratamento médico. A diferença é que metade deles recebia prece e a outra metade não, sem que os doentes e médicos soubessem do fato, para evitar qualquer tipo de influência. Depois do período determinado no estudo, verificou-se que o grupo munido de orações melhorou em alguns aspectos, mostrando claros benefícios, como um menor suporte ventilatório; o uso de quantidade menor de medicamentos como antibióticos e diuréticos; e menos acometimentos de edema pulmonar e insuficiência cardíaca.
No estudo coordenado por Carlos Tosta, a intenção era saber se a prece intercessória, a distância, poderia alterar a função dos monócitos e dos neutrófilos humanos — células de defesa do sangue cuja função é captar agentes estranhos, micróbios e bactérias, por exemplo, e destruí-los pela ingestão. Dessa vez, o diferencial estaria nos indivíduos sadios. Para isso, foram selecionados 52 estudantes de medicina, divididos em pares do mesmo sexo, com média de idade de 20 anos. Também aqui utilizou-se o procedimento duplo cego (nem os participantes do projeto nem os pesquisadores sabiam quem recebia a prece), além de duplo controle (ora um grupo funcionava como controle, ora outro).
Voluntários de diferentes religiões participaram da iniciativa, cada um deles recebendo a foto e o nome da pessoa para quem se comprometia a rezar diariamente.
“Um par de estudantes preenchia um questionário de avaliação clínica e um acerca de estresse; era também retirado sangue para verificar a fagocitose por duas células diferentes. Por uma semana, um dos dois recebia a prece dos 10 interventores (voluntários religiosos). No sétimo dia, a dupla voltava ao laboratório para preencher novos questionários e eram colhidas outras amostras de sangue”, descreve o professor da FMD. Passado um mês, para evitar um possível efeito residual, todo o processo era repetido, trocando-se, apenas, o beneficiado com a oração.
Fator de equilíbrio
Para a equipe do dr. Tosta, os resultados foram de alta significância, pois quando os indivíduos que receberam a prece foram comparados com os que não a receberam, ou a mesma pessoa observada antes e depois de ser alvo de orações, verificou-se o aumento da estabilidade e um melhor funcionamento das células. “A nossa conclusão é que a prece influencia o sistema biológico de defesa; ela funciona como fator de equilíbrio, e saúde é equilíbrio”, afirma.
O médico explica que, para se beneficiar dessa fonte de bem-estar, basta se ligar a algo superior que lhe faça bem: “A prece, como fala Paiva Netto, não é necessariamente um ato formal de rezar, até os ateus oram*2. Ao contemplar uma coisa bonita, a Natureza, uma música, qualquer ato que nos emociona, estamos em estado de prece, nos colocamos frente a frente com a transcendência, com Deus”.
Do laboratório à prática médica
Boa parte dos médicos tem encontrado na Espiritualidade meios de melhorar a qualidade de vida dos pacientes, na humanização dos tratamentos. Na cidade de Campinas, interior de São Paulo, a BOA VONTADE entrevistou a presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, a psicóloga Elisa Perina, que atua no Hospital Boldrini, centro de referência no tratamento de câncer infantil.
A dra. Elisa lembra que uma das situações mais difíceis com que o Ser Humano pode defrontar-se é o adoecimento de um filho. “O impacto na família é muito grande. Você tem um planejamento de vida normal e a doença vem fazer um corte.” Nessa hora, os pacientes precisam encontrar força interior para enfrentar uma trajetória marcada por sofrimento e pelo medo da morte. Para a psicóloga, além do trabalho da equipe multidisciplinar e do auxílio dos amigos e dos familiares, “a outra sustentação é a fé, a crença na cura, a esperança na vida”. Por isso, explica a dra. Elisa, no Boldrini foi criado o grupo de capelania, “que dá o apoio espiritual, fazendo uma ponte com a religião de cada um”.
Graças à ciência e ao esforço de um sem-número de profissionais, hoje a maioria das crianças e dos adolescentes com câncer chega à cura, cerca de 70%. Ao mesmo tempo, esse processo é cercado também de um crescimento pessoal. De acordo com a médica, os valores se alteram nessa caminhada: “Toda dor traz um sofrimento que ensina. Quem vence um câncer sai vitorioso, mais fortalecido na fé, na vida, no amor, na solidariedade, naqueles valores que são fundamentais. Esses pacientes adolescentes, muitas vezes, voltam para ajudar aqueles que estão começando o tratamento, porque esse é o sentido real da vida”.
Nos vários anos de trabalho no hospital, a dra. Elisa acompanhou dezenas de casos e afirma que, particularmente nos pacientes terminais, essa compreensão é fundamental para o processo de despedida. Ela também presenciou manifestações de muitos doentes, já em seus momentos finais, em que começaram a vislumbrar o outro lado da Vida: “Muitos deles relatam, baseados nas suas crenças, visões de alguém no quarto, ou alguém de branco, ou alguma situação de luz. Crianças, no último dia, relataram para os pais que viam um jardim colorido, com muitas flores e crianças brincando”.
Além do cérebro e do corpo
A psicóloga Ana Catarina Elias considera que a questão da Espiritualidade representa, cada vez mais, um caminho para o profissional de saúde. Ela criou uma técnica chamada Relaxamento, Imagens Mentais e Espiritualidade (Rime), baseada em relatos de Experiências de Quase-Morte (EQM), com a qual defendeu tese de doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp).
A falta de resposta para aspectos existenciais da vida humana ficou mais evidente para ela a partir de 1998, quando foi trabalhar em uma unidade de oncologia pediátrica e tornou-se responsável por crianças e adolescentes sem mais possibilidade de cura. A dra. Ana percebeu que, além da dor psíquica (o medo do sofrimento, o humor depressivo), havia o sofrimento espiritual (o medo da morte, do post-mortem, e as possíveis culpas diante de Deus): “E a dor espiritual é muito mais importante”, destaca.
Então, era necessário procurar um caminho para minimizar aquele sentimento, ou dar-lhe novo significado, oferecendo aos pacientes qualidade de vida no processo de morrer. “Por sincronismo, nada acontece por acaso, na mesma semana assisti a um documentário sobre Experiências de Quase-Morte e percebi que essas vivências, quando as pessoas estavam clinicamente mortas, haviam diminuído o medo da morte”, diz.
A Rime integra o relaxamento mental e elementos de EQM: “Comecei a colocar pacientes em um estado de consciência alterada, induzindo-os a uma visualização de elementos da Espiritualidade, e observei que obtinha bons resultados”.
Na época de seu doutorado, a psicóloga conduziu um programa de treinamento para ensinar profissionais de saúde a usar essa intervenção. Ela cita casos como o de uma paciente com angústia respiratória excessiva, mesmo devidamente medicada. “O médico disse que não havia mais nada a fazer, então a enfermeira começou a aplicar a Rime. A pessoa melhorou nesta questão: também não se mexia mais e conseguiu mudar de lado na cama; [a nora da paciente] disse que ela saiu da expressão facial ‘com dor insuportável’ para expressão facial ‘nenhuma dor’ e morreu, naquela noite, extremamente tranqüila.”
A razão para essa aceitação se explica, segundo a dra. Ana, por uma mudança de paradigma: “Toda a questão do sofrimento, da doença, está na morte do corpo, mas a vida, a saúde, são totalmente deslocadas para o Espírito, que se liberta, dentro de uma perspectiva na qual, acreditamos, existe vida após a morte, não só em bases religiosas, mas também com base nos estudos das Experiências de Quase-Morte. Elisabeth Kübler-Ross*3 foi pioneira na área de cuidados paliativos; devemos muito a ela no trabalho do morrer. Ela afirmava, depois de lidar 30 anos com pacientes terminais: ‘A morte é apenas uma passagem, uma transição desta vida física para outra existência’”.
A psicóloga diz que a técnica só é aplicada com o consentimento do doente. Segundo ela, os familiares, em sua quase totalidade, observam uma transformação positiva. “Os pacientes começam a avançar no Mundo Espiritual, relatam que parentes [mortos] estão se aproximando, Seres Espirituais.” O mais notável, porém, é verificar a mudança que se opera durante cada sessão: “Se entrar uma pessoa estranha, vai sentir a Paz em que aquele ambiente se transforma”.
Frequência modular
A dra. Ana Catarina enfatiza que o apoio espiritual nunca é negado, mas parece existir uma frequência modular se o estado psíquico mostra-se muito negativo: “Entra-se em lugares feios, assustadores”. Por isso, a psicóloga e pesquisadora ressalta o valor da oração: “No instante em que se pede ajuda a Deus, imediatamente o Amor Divino vem. Uma metáfora diz que o coração para a Espiritualidade é uma porta que só tem uma maçaneta por dentro”.
Para finalizar, vale anotar o que diz Paiva Netto em seu artigo “Ateu também pode orar”: “Amar é uma oração. O que é a Prece senão o Amor que se dispõe para grandes feitos? Um irmão ateu, quando realiza um ato que beneficia a coletividade, está orando. Rezar não é uma ação simplesmente figurativa. É o mais forte instrumental que a essência humana, o Capital Divino, possui. Como afirmava o monge católico alemão Tomás de Kempis (1380-1471), em Imitação de Cristo, ‘sublime é a arte de conversar com Deus’ . (...) Quando se ora, a Alma respira, fertilizando a existência humana. Fazer prece é essencial para desanuviar o horizonte do coração”.